Brasil, um solitário

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Venho viajando pela América Latina há mais de doze anos. Durante todo esse tempo, fui percebendo um fato que direi agora. Nunca falei dele, no entanto, porque, como cidadão deste país, constrange-me um fato que, de certa forma, depõe contra os brasileiros.

Na maioria dos países, povos mantêm proximidade com outros povos. No Equador, na Venezuela ou na Colômbia, por exemplo, o que acontece num dos países repercute nos outros. As mídias locais repercutem da política às fofocas sobre celebridades dos vizinhos. Até nos Estados Unidos, o país supostamente mais autocrático do mundo, o que acontece no Canadá ou no Reino Unido desperta interesse na população.

Por que o brasileiro não se interessa por seus vizinhos latino-americanos? Dizem que a culpa é da mídia – e ela carrega, sim, mais essa culpa –, mas me parece que ela não promove maior integração entre os brasileiros e os povos dos países vizinhos não só por uma, mas por duas razões, sendo que uma delas não decorre dos grandes interesses que a mídia representa e defende.

A primeira e mais óbvia das razões é a de que a mídia brasileira atua como uma espécie de propagandista norte-americana. Enfia-nos a cultura e os interesses dos EUA goela abaixo e, nesse contexto, não lhe interessa aproximar o brasileiro dos outros povos latino-americanos, na maioria bem mais politizados do que nós.

A segunda razão, porém, reside na cultura brasileira. Só nos interessamos pelos americanos, doutrinados que somos por Hollywood desde a infância. Porém, como eles nem sabem que existimos, não se pode chamar isso de integração.

Minhas viagens pelo continente fizeram-me perceber como as realidades dos países latino-americanos são parecidas e como poderíamos superar barreiras sociais e culturais se prestássemos mais atenção ao que acontece à nossa volta.

Alguém sabe que por aqui (no Equador) o uso de algemas em presos também está sendo debatido? Ou que, como no Brasil, a discussão foi desencadeada depois que figurões andaram sendo algemados? E notem que essa é apenas uma das muitas questões coincidentes.

O brasileiro sempre fica sem reação quando o assunto ultrapassa suas fronteiras, a menos que seja uma questão de substantiva repercussão mundial. Essa ausência de interesse pelo que ocorre ao nosso redor, claro que tem alguma relação com o fato de sermos o único país do continente onde se fala o português, mas esse fato não explica tudo.

Sempre que viajo sou tomado por essa consciência desoladora, pois sei que no dia em que o Brasil se integrar ao resto da América Latina ela se fortalecerá de uma maneira que poderá tirá-la do fosso social em que está mergulhada desde sempre.

É por isso que, quando viajo, insisto em transmitir fatos sobre o país visitado, desligando-me da política paroquial brasileira. Ao menos os meus leitores, com o tempo, irão adquirindo maior interesse pelo que acontece à volta do Brasil, pois o que acontece do lado de fora dele, se já não aconteceu, acabará acontecendo do lado de dentro. Cedo ou tarde.

 Escrito por Eduardo Guimarães   http://edu.guim.blog.uol.com.br/ 

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