Crise Financeira EUA X Brasil

ESTADOS UNIDOS Costa Rica, Honduras e Guatemala já sofrem com desemprego por terem empresas com contratos exclusivos com o país; ainda assim, Bush insiste em assinar TLC com a Colômbia

Memélia Moreira

DAQUI A alguns anos, muitos anos, quando historiadores e arqueólogos se debruçarem para estudar as cinzas do capitalismo, no capítulo “recessão americana”, certamente o Brasil será citado como um dos países que sobreviveu à grande crise. E um nome terá destaque nesse capítulo: o do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que, com respaldo dos movimentos sociais da América Latina, resistiu à assinar um acordo que levaria o continente à catástrofe que começa a ser vivida pelos estadunidenses.
Sua persistência para evitar que o Brasil assinasse o acordo de criação da Área de Livre Comércio da América Latina (ALCA) na reunião de Miami, foi decisiva para nos tornar menos vulneráveis à crise. Naquele outono de 2003, na ensolarada Miami, Amorim usou todas as cartas e virou o jogo em favor do Brasil, deixando um alerta para os demais países latino-americanos.
A ALCA, nos termos pretendidos pelo Império, era nociva aos interesses dos países que vivem ao sul dos Estados Unidos. Seu comportamento foi exatamente o inverso de seu antecessor no ministério, Felipe Lampréia, que não só era favorável à ALCA, como chegou ao cúmulo de, nas discussões sobre esse tratado de livre comércio, assinar um acordo bilateral com os Estados Unidos, cedendo a Base de Alcântara, no Maranhão, para uso exclusivo dos gringos. Mais uma vez, os movimentos populares e o relator do assunto na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o então deputado Waldir Pires (PT-BA), evitou uma “Base de Guantánamo” em território brasileiro.
Sem estardalhaço, Celso Amorim enfrentou um plenário que reunia ministros de 34 países latino-americanos, homens de negócios de todo o continente e, principalmente, Robert Zoellick, que era subsecretário de Comércio dos Estados Unidos e hoje, presidente do Banco Mundial. Era um encontro de diplomatas, mas o jogo foi pesado, principalmente porque Zoellick chegara ao cúmulo de dizer que “ou o Brasil adere à ALCA ou vai se aliar à Antártida”. Mas Celso Amorim não se intimidou. Ele resistiu e, ao enfrentar os anfitriões, e demais ministros da América Latina, provocou também a agonia dos tratados comerciais que os EUA queriam mais uma vez impor à nossa América.
Lá fora, isolados da reunião, os movimentos sociais de toda a América Latina demonstravam sua total repulsa ao tratado nas manifestações que nos jornais estadunidenses foram chamadas de “a batalha de Miami”.

Brancaleone x caubóis
De um lado, bombas de pimenta, gás lacrimogêneo, 30 mil homens vestidos de preto dos pés à cabeça, cobertos por elmos à prova de balas, outros formando uma barreira, montados em bicicletas com luz de neón, camburões, jovens policiais com algemas penduradas na cintura, atiradores de elite na coberturas dos hotéis da avenida Bay Biscayne, armas ostensivamente à mostra.
Do outro, pessoas coloridas, desarmadas, com alegres e ritmados gritos de protesto que misturavam inglês, português, espanhol, lembrando “o incrível Exército de Brancaleone” – um cavaleiro atrapalhado que lidera um pequeno e esfarrapado Exército – , vigiadas pelo ar por helicópteros com seus potentes faróis, e pelo mar, no azul do Caribe da baía Biscayne, por um portaaviões de tamanho médio. Todos prontos para atacar os 15 mil manifestantes que, naquele dia de 2003, diziam “não” à ALCA. No auditório da Igreja Batista, na mesma avenida em que aconteciam os confrontos, num discurso para um público de mais de 3 mil pessoas, o poderoso John Sweeny, presidente da maior central sindical do mundo, a AFL-CIO, alertava o auditório contra os efeitos nefastos da ALCA, “que vai tirar mais empregos dos estadunidenses, como fez o NAFTA [Área de Livre Comércio da América do Norte, integrada pelos Estados Unidos, México e Canadá]”. Seus seguidores engrossaram a marcha enquanto clamavam “Fora Bush”, palavra de ordem imediatamente apoiada pelos manifestantes latino-americanos.
A 400 metros dos manifestantes, no hotel Inter-Continental, um cinco estrelas cercado por telas eletrificadas, Celso Amorim, quase de forma solitária, e até contra seu colega, Fernando Furlan, então ministro da Agricultura, anunciou que seu país não assinaria o acordo nas bases propostas pelo governo estadunidense, mentor intelectual da ALCA ou FTAA, na sua sigla em inglês.
No Brasil, poucos se lembravam que, naquela data, 19 de novembro, se comemorava o Dia da Bandeira. E nenhum brasileiro, mesmo vidente, com bola de cristal ou babalorixá e seus búzios, podia prever que naquele dia, a voz solitária do ministro tornou o Brasil mais resistente nos anos seguintes. Os demais países que prontamente concordaram com Zoellick e aceitaram assinar acordos conhecidos pela sigla TLC (Tratado de Livre Comércio) já vivem as angústias da crise que começou com os bancos que praticavam o subprime (juros abaixo dos valores do mercado) nos empréstimos imobiliários, e hoje já atinge boa parte da economia estadunidense, que começa a viver sua primeira grande recessão do século 21. E uma recessão que a cada dia mais se aproxima de uma depressão.

Recessão x depressão
O professor Aírton Queiróz, do Departamento de Economia da Tecnologia da Universidade Federal Fluminense, chama a atenção para a diferença entre “recessão” e “depressão”. Diz ele que a “economia estadunidense, embora já tenha, na margem, entrado em recessão – que significa redução do ritmo de crescimento –, ainda cresce, mesmo que pouco. Recessão não é depressão. Este último fenômeno é muito mais grave, significa volumes nacionais de produção física menores que nos trimestres/ anos anteriores, o que causa desemprego de gente de capacidade produtiva, de investimentos, em movimento de bola de neve, isto é, ladeira abaixo, comprimindo o consumo e destruindo a economia”.
O professor diz que ainda é cedo para avaliar até onde vai chegar a crise, porque, afirma, “só houve grandes danos nas empresas imobiliárias, em bancos de investimentos e em algumas seguradoras. Os balanços dos gigantescos bancos comerciais referentes ao primeiro trimestre de 2008 ainda não saíram”.
Mas, mesmo reconhecendo que o fenômeno ainda não se enquadra na depressão clássica, Queiróz chama a atenção para o fato de que os “Estados Unidos vivem, desde a década de 1970, acima de suas possibilidades, formando dívidas públicas e privadas crescentes, e um dia a fatura teria que chegar. Até que demorou muito para chegar a conta. E só chegou um pedaço pequeno dela”.
Ou seja, provavelmente o valor total da conta mergulhe o país na depressão, palavra estigmatizada para qualquer estadunidense com mais de 60 anos.
Se a depressão ainda é só uma ameaça, ela vem solapando até mesmo os grandes bancos. É o caso do Citi. Considerado o maior banco privado do mundo em ativos, assistiu um rombo colossal nos seus lucros em 2007, em decorrência da crise imobiliária. O rombo foi de 18 bilhões (bilhões!!!) de dólares, e o anúncio de que 20 mil empregados serão demitidos até o final do semestre.

Primeiros efeitos
Mesmo que a depressão ainda pareça distante, a recessão já começou a fabricar suas vítimas, não só dentro dos Estados Unidos. Ela começa a atingir aqueles que assinaram acordos bilaterais de comércio com os EUA. A primeira vítima é a Costa Rica.
Em 2007, o governo promoveu um referendo para aprovação do TLC. Na época, a Igreja Católica e os movimentos sociais acusaram o presidente costarriquenho, Oscar Arías, de compra de votos para aprovar o tratado.
E agora, 14 meses depois do referendo ser aprovado, os trabalhadores costarriquenhos já sabem o quê significa “livre comércio” com um país em bancarrota. Na primeira semana de abril, 1.600 pessoas perderam o emprego numa fábrica que tem contrato exclusivo com os Estados Unidos. Para um país com uma população de pouco mais de 3 milhões, o número é significativo.
Honduras e Guatemala seguem o mesmo caminho. E os primeiros resultados já podem ser percebidos na costa da Flórida, para onde migram centenas de pessoas, principalmente da América Central e dos países banhados pelo Caribe. Nos dois últimos meses, o número de imigrantes para o sul dos Estados Unidos passou de 130 por mês para mais de 180. E, na noite de 21 de abril, a Guarda Costeira da Flórida recolheu 60 mortos de um barco que vinha carregado de haitianos e salvadorenhos fugidos da miséria de seus países. Só três dos náufragos sobreviveram.
Os sobreviventes desses naufrágios, cada dia mais freqüentes, obviamente, vão se juntar ao exército dos ilegais que aceitam qualquer tipo de trabalho em troca de salários abaixo do mínimo do Estado da Flórida, que é de US$ 6,75/ hora. Ou seja, mais uma razão para os sindicalistas estadunidenses baterem forte contra os tratados de livre comércio.

Colômbia
Apesar da derrota em Miami, apesar dos anúncios de catástrofes, e apesar de todos os alertas de que os tratados vão criar mais desemprego num país que, por causa da crise, está perdendo mais e mais postos de trabalho, o presidente George W. Bush parece desconhecer a tragédia que se forma ao seu redor. E, num alheamento que se assemelha à oligofrenia, Bush ainda insiste em assinar tratados comerciais.
Sua mais recente investida aconteceu no início de abril, quando o presidente mandou ao Congresso a mensagem para que fosse votada a lei autorizando os EUA a assinar o TLC com a Colômbia. Ele pediu pressa “porque o Tratado de Livre Comércio com a Colômbia atende nossos grandes interesses nacionais e é em defesa da democracia na Colômbia”. O velho discurso, dessa vez, não colou. George W. Bush mais uma vez frustrou-se. Nancy Pelosi, deputada democrata do Estado da Califórnia, e terceira na linha de sucessão presidencial (ela é presidente da Câmara), depois de dizer que “o presidente vai nos levar à bancarrota com as guerras do Iraque e Afeganistão e a crise econômica”, usando de suas prerrogativas contitucionais, decidiu fazer o projeto tramitar em “60 dias legislativos”. Ou seja, mais de seis meses.
Em outras palavras, o próprio Congresso estadunidense deu o tiro de misericórdia no grande sonho de se ter uma zona franca de comércio do Alasca à Patagônia, transformando em cinzas não apenas a ALCA (que ainda povoava o imaginário de Bush), mas seu sucedâneo, o TLC. E ele próprio já admite, nas reuniões de gabinete, que o prazo estipulado por Nancy Pelosi, “liquida o tratado”.

“Brasil De Fato”

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