REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932

HOMENAGEM AOS VOLUNTÁRIOS E AOS HERÓIS SERRANEGRENES 

Artigo de José Roberto Franco da Rocha 

Como faz anualmente, a Lira de Serra Negra, no seu primeiro concerto do mês de julho, rende homenagem à Epopéia Paulista, na defesa dos ideais democráticos, que foi a Revolução Constitucionalista de 1932.

Neste ano, não será diferente, pois no Concerto do Projeto “Som da Serra 2011”, que será realizado no próximo dia 10 de julho, a Lira vai comemorar o 79º aniversário da Revolução de 1932, com a leitura deste texto, antes da apresentação da marcha “Paris Belfort”, do compositor francês J. Farrigoul, mas cuja música que se tornou a verdadeira marcha de guerra das tropas constitucionalistas.

Antes da marcha será lida também a carta que o jovem tenente  PM Mário Dallari enviou aos familiares, antes de partir para a frente de combate onde foi mortalmente atingido. 

Contribuição de Serra Negra e para a logística do esforço revolucionário paulista

Como tão bem descreveu Nello Dallari, no seu livro “Sob o Céu Azul da Estância de Serra Negra”, a memorável epopéia paulista de 1932 fez vibrar a alma cívica do povo serrano, tomado de entusiasmo sem precedente.

Todos se uniram em torno da sacrossanta causa de São Paulo. Não só os jovens em condições de lutar nas trincheiras, como também os velhos, senhoras e crianças se entregaram de corpo e alma à gloriosa arrancada constitucionalista.

Já no dia 13 de julho, em movimentada e entusiasta reunião realizada ao meio-dia, no salão do Clube 1º de Janeiro, sob a direção do prefeito Sr. José Antônio da Silveira, do delegado de polícia Dr. Jerônimo de Oliveira Franco e do Dr. João Batista de Freitas Sampaio, secretariada pelo Sr. Benjamim Nóbrega, foi deliberada a convocação de voluntários para servir a nobre causa.

Dezenas de jovens pertencentes às mais destacadas famílias locais e mesmo alguns chefes de família atenderam ao chamamento, alistando-se como voluntários, partindo logo em seguida para o front, localizado na cidade de Socorro, integrando o Batalhão “23 de Maio”.

A despedida dos valorosos soldados paulistas e serranos foi das mais comoventes e entusiastas. Mães, filhas, noivas choravam de emoção, ao mesmo tempo em que incentivavam os seus familiares a lutar em defesa de São Paulo, da Liberdade e da Democracia.

Foi fundada a seção local da Cruz Vermelha e instalada uma comissão para angariar recursos pró-revolução, integrada pelos Srs. Capitão Francisco Pinto da Cunha, Benedito Leme de Abreu, Francisco da Silveira Franco e Antônio José Jorge.

Por iniciativa do Dr. Francisco Tozzi, instalou-se um grande hospital de sangue, em Termas de Lindóia, que era, ainda, Distrito de Paz do Município de Serra Negra.

Outra comissão, incumbida de obter donativos para as famílias dos voluntários pobres, era integrada pelo Padre Elias Cury, pelo farmacêutico Francisco Waldemar Horta e pelas senhoras Letícia Zelante Cavenaghi, Aladina Filipi, Ângela Blotta de Toledo e a professora Alaíde Mangeon Citrângulo.

Criou-se, a seguir, a comissão M.M.D.C., sigla símbolo do Movimento Constitucionalista, composta pelas iniciais dos estudantes mortos, em São Paulo, durante as manifestações de repúdio à Ditadura, que se instalara em 1930. A comissão M.M.D.C. da nossa cidade era integrada pelos Srs. Benedito Leme de Abreu, Dr. Firmino Cavenaghi, Dr. Jovino da Silveira e pelo farmacêutico José Cintra de Almeida, que instalou um banco de sangue, no Hospital Santa Rosa de Lima.

O Grupo Dramático Luso-Brasileiro, do qual participavam, entre tantos outros, os Srs. Vicente Chedid, Antônio Barbosa da Fonseca, João Mendes de Toledo, Sebastião de Lima e Antônio Macedo, realizou festivais, em benefício dos voluntários pobres.

Ainda em agosto, foi iniciada a Campanha do “Ouro para a Vitória”, sob a orientação dos Srs. Nicolau da Rocha Vita, Padre Humberto Manzini, Eliseu Franco de Godoy, Hildebrando Siqueira, Moisés Mendes, Izaltino de Oliveira e Senhoras Yolanda Bruschini Silveira, Letícia Cavenaghi e Aladina Filipi. 

Os voluntários de Serra Negra 

Merecem o nosso maior respeito e admiração os valorosos conterrâneos alistados como voluntários, entre os quais destacamos:

  1. Abílio Teixeira de Magalhães,
  2. Agostinho de Oliveira,
  3. Alberto Corsi,
  4. Aldomiro Assis,
  5. Antenor Alves Godoy,
  6. Antônio Bertolini,
  7. Antônio de Oliveira,
  8. Armando Cristiani,
  9. Artur Argentini,
  10. Ataliba de Almeida,
  11. Benjamim Nóbrega,
  12. Braz Eduardo de Castro Blotta, o saudoso Cabo Braz, que recebeu as divisas da sua graduação, pelo valorosos empenho, coragem e bravura, nas zonas de combate.
  13. Cantídio Vieira de Godoy,
  14. Cássio da Costa Pimentel,
  15. Célio Camargo,
  16. César G. Vasco,
  17. Cirino Alves da Luz, o voluntário combatente mais idoso da tropa paulista.
  18. Clementino Ricci,
  19. Cyro Nelson Della Santina,
  20. Dilarmando Toreli,
  21. Durvalino Araújo Leite,
  22. Durvalino Vieira,
  23. Édson de Oliveira – Dr.,
  24. Eurídice de Oliveira,
  25. Evilásio Antônio de Souza,
  26. Felício Gomes,
  27. Firmino H. Cavenaghi – Dr.,
  28. Francisco Outeiro da Silveira,
  29. Francisco Pinheiro,
  30. Garcindo Alves de Andrade,
  31. Gilberto Fiorentini,
  32. Gounod de Oliveira,
  33. Hélio Ramos,
  34. Homero de Freitas Teixeira,
  35. Izidor Tamaleri,
  36. Jaime Marques Teixeira,
  37. João Domingues,
  38. João Henrique Matias,
  39. João Lombardi – Dr.,
  40. João Pacífico Baptista,
  41. João Rodrigues de Oliveira,
  42. João Silveira,
  43. Joaquim Araújo Almeida,
  44. Joaquim Ferreira Coutinho,
  45. José Benedito,
  46. José de Abreu Citrângulo,
  47. José de Campos Vergal,
  48. José de Oliveira – Dr.,
  49. José Lourival de Almeida,
  50. José Moraes Godoy,
  51. José Pedro Salomão,
  52. Jovino Silveira – Dr. ,

Cirino Alves da Luz, voluntário serranegrense, foi o voluntário mais idoso incorporado às tropas de combate paulistas. 

  1. Lauro de Oliveira Franco,
  2. Mário Toledo,
  3. Mozart Pupo Nogueira,
  4. Nelson Bruschini,
  5. Omar Camargo,
  6. Pedro Elias,
  7. Reali Paulino Vichi,
  8. Ruy Padilha,
  9. Sabastião Alves,
  10. Sabastião Franco Sobrinho,
  11. Sílvio Manzini,
  12. Teófilo Pupo Nogueira,
  13. Umberto Amaral e
  14. Vicente Raymundo.

Os que tombaram nos campos de batalha

Em 1932, Serra Negra chorou a perda de dois valorosos filhos, tombados nos campos de batalha:

#1. o Tenente Mário Hilário Dallari, que partiu de São Paulo, integrando o 2.º Batalhão da Força Pública “Marcílio Franco”, e

#2. o Sargento Agostinho de Oliveira.

Ambos receberam a consagração dos seus conterrâneos, que deram os seus nomes a duas ruas desta cidade, ambas ladeando o Jardim Público, antiga Praça Barão do Rio Branco, que hoje é a Praça Prefeito João Zelante e também a Praça Presidente John Fitzgerald Kennedy.

O Tenente Mário Dallari, no dia em que partiu para o front, enviou aos seus familiares, que estavam aqui em Serra Negra, uma carta, que a família guarda com o maior carinho. A suas palavras ainda ecoam febris em nossa memória. A sua leitura é indispensável, para que possamos ouvi-las e tomá-las como exemplo da grandeza dos ideais do grande herói serranegrense.

Carta de despedida do jovem tenente Dallari

Bendita e adorada mãe, querido pai, inesquecíveis irmãos, sobrinhos e cunhados:

A Deus peço ter-vos sob a sua bendita guarda.

Talvez, antes do meu coração, ao chegar estas linhas em vossas mãos, já o meu corpo se corrompa na podridão esfalecedora dos vermes asquerosos, ou talvez ainda eu esteja me batendo pela causa sacrossanta de São Paulo e no nosso amado Brasil.

Se vos endereço esta carta, no dia de minha partida para o front, é para pedir-vos perdão pelos desgostos que vos tenho dado e dizer-vos que, se parti para a frente de batalha, não foi por falta de conselhos dos meus queridos amigos Aurélio Leme de Abreu, Dr. Nelson, Roque, dona Ainda e meu tio Ferrúcio, que me pediram muita prudência para tomar essa decisão.

Parti porque assim me ordenava o coração e assim exigem os meus brios de paulista e de brasileiro. Levo sobre o meu coração a medalha que minha abençoada mãe me deu, quando deixei minha casa para servir o Exército.

Se, por ventura, uma bala me ferir e eu tenha tempo, beijarei a imagem do Sagrado Coração de Jesus, da medalha, e pedirei perdão a meu pai, e o Sagrado Coração de Maria Santíssima, como sendo minha mãe.

Não culpem ninguém por este meu ato. Se eu morrer, sentir-me-ei honrado, morrendo por São Paulo e pelo Brasil.

Lembranças minhas aos padrinhos Filipe e Maria José e aceitem um forte abraço do filho que vos pede a bênção, do irmão, tio e cunhado, Mário.

Viva São Paulo. Viva o Brasil. Viva a Democracia.

São Paulo, 13 de julho de 1932.

O bravo serranegrense Mário Dallari, que, pela sua coragem e espírito guerreiro, foi logo promovido ao posto de 2º tenente, morreu no dia 10 de setembro, quando, comandando um pelotão, tentava a travessia do Rio da Almas, na região de Itapetininga.

O povo de Serra Negra, homenageando o seu herói, providenciou o traslado do seu corpo para esta cidade e ofereceu-lhe um artístico túmulo, no cemitério local.

O sargento Agostinho de Oliveira foi sepultado em São Paulo, no jazigo da família.

Bem mais tarde, os restos mortais dos nossos dois heróis foram removidos para o Mausoléu do Soldado Constitucionalista, sob o grande obelisco do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, onde repousam ao lado dos companheiros que doaram suas vidas pelos mais nobres ideais de amor à Liberdade, defesa da Constituição e do Estado de Direito.

Monumento aos heróis de Serra Negra

Em Serra Negra, foi construído e solenemente inaugurado, ao lado direito do Paço Municipal, um pequeno monumento, mas muito importante e significativo. Manifesta o preito de gratidão da cidade aos nossos heróis e homenageia a Epopéia Democrática dos Paulistas.

Além da placa comemorativa, o monumento, por indicação do combatente Cabo Brás Eduardo de Castro Blotta, foi artisticamente decorado com uma granada, um fuzil e um capacete típico das tropas revolucionárias. Infelizmente, o monumento foi totalmente depredado. Dele restam apenas base e as lâminas de mármore, que davam sustentação aos expressivos ornamentos históricos.

Urge providências para que a Administração Pública promova a restauração do monumento, patrimônio histórico e símbolo do valor cívico e democrático dos serranegrenses e que atesta o respeito que dedicam aos seus voluntários e aos heróis mortos em combate.

Rendamos lhes, pois, as nossas homenagens e repitamos, hoje, as derradeiras palavras do Tenente Mário Hilário Dallari aos seus familiares:

— Viva São Paulo!

— Viva o Brasil!

— Viva a Democracia!

O que restou do monumento a 1932, hoje totalmente depredado. 

Artigo publicado pelo jornal “O Serrano”, edição do dia 8 de julho de 2011.

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